PRIMEIRA OBJEÇÃO
Um texto de São Tiago
A EXTREMA UNÇÃO
Um protestante pergunta:
Como se entende Tiago 5,14-15, em conexão com Romanos 14,12?
O jornal Batista responde:
"Não podemos atinar com a conexão, que o consulente achou entre estes dois textos tão diferentes. O primeira aconselha um modo de proceder, no caso de algum irmão ficar doente, que é o recurso da oração e da medicina; (o azeite era de largo emprego medicinal, naquele tempo); o segundo ensina a responsabilidade individual de cada um perante Deus. Só se o consulente atribui aos anciãos uma função sacerdotal, como a Igreja Católica atribui aos seus padres com poderes de perdoar pecados aos moribundos, pelo rito, que ela chama de extrema unção. A Igreja Católica ensina isso, mas não Tiago. Ele não atribui aos anciãos poder algum de perdoar os pecados."
Tal é a resposta protestante. Vê-se, à primeira leitura, que o Pastor está atrapalhado, pois, em vez de dar a resposta à pergunta, vira logo contra a Igreja Católica, acusando-a de exercer um poder, que não possui. Ora, a pergunta não é esta. O consultante quer saber da conexão entre estes dois textos, e não o que ensinam os católicos.
Procuraremos elucidar bem o caso e explicar o que o Pastor não soube, ou não quis explicar, pondo tudo em plena luz.
Eis os dois textos aludidos.
A passagem de São Tiago é:
"Há algum doente entre vós? Chame os sacerdotes da Igreja, os quis orarão por ele e ungirão com óleo, em nome do Senhor. E a oração cheia de fé, salvará o doente; e o Senhor o aliviará; e, se tiver cometido pecados, ser-lhes-ão perdoados."
(Tg 5,14-15)
A de São Paulo é a seguinte:
"Portanto cada um de nós de si dará conta a Deus."
(Rm 14,12)
I. FALSIFICAÇÃO PROTESTANTE
Convém revelar, em primeiro, a falsificação da tradução protestante, que diz: "Está alguém, entre vós, doente? Chame os anciões da Igreja".
Porque anciões para friccionarem com óleo um doente? Uma pessoa qualquer não será capaz de fazer isso? Que virtude especial terão as mãos de um ancião para ungir, ou friccionar um doente com azeite? Por que não fazer isso em família?
É um contra bom senso, dede que tal unção não passa de uma cerimônia exterior, uma espécie de remédio.
Os protestantes que acreditam na tradução falsa da Bíblia, devem ficar rindo de tais anciões da Igreja, encarregados de friccionar, com óleo, os seus doentes.
E isso é tão certo que nem os protestantes pedem isso a seus pastores, nem os senhores pastores fazem a tal cerimônia de fricção ou unção.
É letra morta... e, entretanto, está na Bíblia.
Vê-se logo que aqui há uma falsificação.
II. A VERDADE CATÓLICA
De fato, a falsificação existe. O texto autêntico não fala em anciões da Igreja, mas sim em sacerdotes da Igreja, o que não é a mesma coisa.
Os amigos protestantes, não tendo sacerdotes para justificarem a sua heresia, trocaram muito inocentemente ou muito perversamente, a palavra sacerdote por ancião; apesar da completa distinção entre estas duas pessoas.
O texto traz presbyter, o que quer dizer sacerdote ou padre, e não senex, que significa ancião; como se pode constatar em muitas passagens da Bíblia.
São Mateus diz, por exemplo, que
"Cristo havia de sofrer da parte dos anciãos, dos escribas e dos príncipes dos Sacerdotes."
(Mt 16,21)
O texto latina é: et multa pati a SENIORIBUS, et scribis, et principibus SACERDOTUM.
Está se vendo que os anciões estão realmente distintos dos sacerdotes; o próprio Evangelho faz a distinção.
Como é que os protestantes traduzem, nesta passagem de São Mateus príncipes dos sacerdotes, e não dos anciões, e que em outra parte traduzem sacerdote por ancião!
Há aqui um erro voluntário... em outras palavras, uma falsificação de herege.
Há muitas outras provas de falsificação igual a estas. O meu amigo consulte, por exemplo, 1Tm 5,17:
"Os sacerdotes, que governam bem, tem direito à dupla honra, mormente os que labutam na pregação e no ensino".
E no versículo 19:
"Contra o sacerdote não receberás acusação, senão com duas ou três testemunhas, etc.".
Nestas passagens, a Bíblia emprega a palavra presbyter e quando se trata do povo, dos chefes do povo, juízes, etc., emprega a palavra senex, ancião. São, pois, duas coisas bem distintas e inconfundíveis, que o rancor herege confunde e mistura, no triste afã de suprimir o sacerdote e de fazer acreditar que qualquer ancião pode exercer esse ofício.
É simplesmente grotesco; ou, pela falta de lógica, ou então pela ignorância.
Se assim fosse, como dizem os protestantes, um homem só poderia ser pastor depois de ter cabelos brancos, depois de ser ancião, ora, veem-se pastores e pastoras de 18, 20 e 30 anos, quase criançolas, que não têm nada de ancião!
Suprimindo os sacerdotes, tais pastores são completamente contrários à Bíblia.
Pobres de pastores... Como sair deste labirinto? Sacerdotes, não o são; anciões, também não o são. Que são eles então?
Nada... simples intrusos, que se outorgam títulos, poderes e encargos, que absolutamente não tem, nem podem ter.
III. A EXTREMA UNÇÃO
Pela lógica das palavras e dos fatos, estamos aqui, diante de uma instituição divina, que convém esclarecer bem, para assim constatar as falsificações protestantes e o ridículo das suas pessoais interpretações da Bíblia.
Tal instituição divina é o que a Igreja Católica chama a "Extrema-Unção".
É um sacramento e não simplesmente uma ficção com óleo, feita por qualquer ancião ou velho.
Chama-se sacramento, meu caro protestante, um sinal sensível, instituído por Jesus Cristo, para nos conferir a graça.
Há três coisas notáveis nesta definição:
1º - Um sinal sensível: a unção com óleo sobre o doente e a oração apropriada. "Eles orarão sobre ele e o ungirão com óleo, em nome do Senhor" (Tg 5,14);
2º - Instituído por Jesus Cristo: é a palavra da Bíblia ou do Espírito Santo: "Se alguém estiver doente, chame os Sacerdotes da Igreja" (Tg 5,14), obrigação, pois, na moléstia, de chamar o Padre e de ser ungido;
3º - Para conferir a graça: "E o Senhor o aliviará, e se tiver cometido pecados, ser-lhes-ão perdoados" (Tg 5,15).
Tal unção, feita pelo sacerdote, produz, conforme o texto da Bíblia, duplo efeito: alivia o corpo e perdoa os pecados.
Tudo isso é claro, é irrefutável. Tal unção, dada pelos padres, na enfermidade, na extremidade da vida, chama-se "Extrema-Unção".
Para poderem negar este sacramento e protestarem contra a Igreja Católica, os amigos protestantes recorreram ao meio sacrílego, - aliás o único que podia dar-lhes razão, - para trocarem as palavras, substituírem o padre por qualquer ancião ou velho, para fazerem, de um sacramento, uma simples fricção de óleo, feita por um velho, seja ele quem for!
É ridículo, e só um tolo pode deixar-se iludir a tal ponto.
IV. CONFIRMAÇÃO PELOS APÓSTOLOS
Tal passagem não precisava de comentário; ela se explica e se comenta pela própria lucidez e o vigor da expressão. A vida dos apóstolos nos dá muitas provas de que é este o verdadeiro e único sentido.
Leia-se o que diz São Marcos, por exemplo (Mc 6,13):
"Os apóstolos, pregavam aos povos, que fizessem penitência e expeliam muitos demônios, e ungiam com óleo, a muitos enfermos e os curavam".
Que quer dizer isto? Serão os apóstolos uns simples curandeiros, que andam friccionando os enfermos, com óleo, para curá-los?
Por que os pastores não os imitam? A exemplo dos apóstolos podiam também friccionar os doentes, enquanto lhes impingiriam alguma Bíblias falsas. O preço da Bíblia compensaria o trabalho da fricção com óleo.
Como tudo isso é ridículo!
Nesta passagem vê-se, claramente, que os apóstolos, que eram sacerdotes e não anciões simplesmente (São João não o era ainda) pregavam o Evangelho e administravam o sacramento da Extrema-Unção, como em outros lugares, administravam o Sacramento da Confirmação, pela imposição das mãos (At 19,5-6; At 8,14-17, etc.)
E a Extrema Unção, administrada pelos Apóstolos, produzia os efeitos assinaladas por São Tiago.
V. CONCLUSÃO
A conclusão impõe-se como todo o rigor do raciocínio.
Os amigos protestantes, como os católicos, consideram São Tiago como um apóstolo inspirado.
Poderão eles imaginar que o apóstolo tenha falado de um rito, pelo qual o homem é salvo, aliviado e os seus pecados perdoados, se não o considerasse uma instituição divina, estabelecida e autorizada pelo seu divino mestre?
Poderão eles imaginar que o apóstolo tenha falado de um rito, pelo qual o homem é salvo, aliviado e os seus pecados perdoados, se não o considerasse uma instituição divina, estabelecida e autorizada pelo seu divino mestre?
Está, pois, bem provada a interpretação católica das palavras de São Tiago, que indicam que: 1.º Os sacerdotes (padre) e não os anciões, recebem ordem de dar a Unção dos Enfermos; 2.º todos os enfermos devem receber a Extrema Unção (São Marcos mostra que muitos a recebiam no seu tempo); 3.º a Extrema-Unção tem por fim aliviar o corpo e salvar a alma, apagando os pecados.
Ora, só Deus pode perdoar os pecados, e só Ele pode dar a um meio material o poder de produzir tal efeito, o que prova que a Extrema-Unção é de instituição Divina.
Qual é, agora, a conexão entre os textos de São Tiago e de São Paulo?
A conexão natural e lógica é que um enfermo deve mandar chamar o sacerdote para receber a Extrema-Unção, e não o fazendo, rejeita os meios de salvação, estabelecidos por Deus, sem poder confiar nos outros, pois, diz São Paulo: "Cada um de nós, de si, dará conta a Deus" (Rm 14,12).
Há, pois, uma conexão natural.
Façamos o que Deus manda e não confiemos a nossa salvação nas promessas dos outros, e, menos ainda, na interpretação falsa dos textos da Bíblia.